A MSC Cruzeiros está a reforçar a sua presença em Portugal, a diversificar a operação atlântica e a preparar uma nova fase de expansão. Mas, para Eduardo Cabrita, diretor-geral da companhia em Portugal, o futuro do turismo passa também por uma mudança profunda na forma como os destinos gerem os seus visitantes.
por Sílvia Guimarães
O turismo está a mudar de escala, mas também de lógica.
Viaja-se mais, reservam-se férias com maior antecedência e multiplicam-se as possibilidades de escolha. Ao mesmo tempo, algumas das cidades mais procuradas do mundo enfrentam uma pressão crescente sobre o espaço público, os monumentos e, sobretudo, sobre a experiência de quem as visita.
Para Eduardo Cabrita, diretor-geral da MSC Cruzeiros em Portugal, a resposta não passa necessariamente por travar o crescimento do turismo, mas por aprender a geri-lo de outra forma.
Foi uma das ideias fortes deixadas pelo responsável durante o roadshow da MSC Cruzeiros realizado em Lisboa, num encontro que serviu para apresentar a estratégia da companhia para os próximos anos, mas também para refletir sobre alguns dos grandes desafios que atravessam atualmente o setor.
A discussão ganha particular relevância num momento em que destinos como Barcelona estão a procurar novas formas de gerir o impacto dos grandes fluxos turísticos.
Para Cabrita, porém, olhar apenas para os cruzeiros é demasiado redutor. Na sua perspetiva, a pressão sobre determinadas cidades resulta de um fenómeno turístico mais abrangente.
“Há cada vez mais pessoas a viajar e o turismo não vai parar”, afirmou o responsável, defendendo que as cidades têm de encontrar novas formas de gerir essa procura.
A solução poderá passar por uma utilização muito mais inteligente da tecnologia.
Eduardo Cabrita apontou o exemplo de Dubrovnik, onde ferramentas digitais permitem acompanhar a concentração de visitantes e orientar os turistas para zonas alternativas, reduzindo a pressão sobre os pontos mais procurados.
É uma ideia que pode parecer simples, mas que encerra uma mudança profunda na forma de pensar o turismo: em vez de tentar impedir que as pessoas visitem determinados lugares, criar condições para que possam descobrir outros espaços e fazê-lo no momento certo.
É a chamada digitalização do turismo, uma tendência que poderá tornar-se determinante nos próximos anos.
Mais destinos, menos concentração
Esta visão acompanha, de certa forma, a própria evolução da MSC Cruzeiros.
A companhia está a aumentar a sua oferta global, mas simultaneamente a diversificar geografias e épocas do ano. Para o próximo inverno prepara aquela que apresenta como a maior operação de inverno da sua história, com 168 destinos em 72 países.
A programação inclui Caraíbas e Antilhas, América do Sul, África do Sul, Ásia e Europa, permitindo aos passageiros escolher entre experiências muito diferentes e viajar para destinos que ultrapassam os tradicionais circuitos mediterrânicos.
A diversificação é igualmente visível no mercado português.
Lisboa mantém uma posição estratégica na operação da companhia, enquanto o Funchal ganha um peso crescente como porto de embarque e desembarque.
Em 2027, o MSC Sinfonia substituirá o MSC Opera nas operações com partida de Lisboa, enquanto o MSC Euribia assumirá uma posição de destaque na operação de inverno a partir da Madeira.
A importância destes dois portos vai, contudo, além da dimensão operacional.
Portugal pode assumir um papel cada vez mais relevante enquanto ponto de partida para viagens internacionais, permitindo ao viajante português iniciar as suas férias no próprio país e evitando parte da complexidade logística associada às grandes viagens internacionais.
A companhia está também a olhar para o Atlântico com renovado interesse.
“Há cerca de cinco anos não olhávamos para o Atlântico com novos itinerários. Hoje, estamos todos a olhar para essa região de outra forma”, explicou Eduardo Cabrita.
A mudança foi acelerada pela própria conjuntura internacional, mas abriu novas possibilidades para Portugal.
No futuro, a estratégia poderá passar por novos itinerários atlânticos, incluindo a possibilidade de cruzeiros de sete noites com partida de Lisboa, embora ainda sem uma programação concreta anunciada.

O consumidor português está a antecipar as férias
Outro dado revelado no encontro de Lisboa ajuda a perceber o comportamento atual do viajante português.
As vendas da MSC Cruzeiros para 2027 estão mais de 12% acima do período homólogo.
Num contexto internacional marcado pela instabilidade geopolítica, o crescimento da procura antecipada assume particular significado.
Os portugueses estão a reservar mais cedo, procurando garantir as suas férias com maior antecedência e, em muitos casos, proteger a decisão através de seguros de cancelamento.
É um comportamento que revela também uma transformação no consumidor.
O viajante está mais informado, compara mais, planeia com maior antecedência e procura assegurar não apenas o destino, mas também as condições da viagem.
Ao mesmo tempo, 2026 demonstrou que a antecipação não elimina a força do chamado last minute.
Depois de uma primavera particularmente difícil, os meses de junho, julho e agosto surpreenderam positivamente a companhia, com uma forte procura de última hora.
O resultado mostra um mercado simultaneamente mais planeado e mais imprevisível, no qual as decisões podem ser tomadas muitos meses antes da partida, mas também alteradas ou concretizadas apenas perto da data da viagem.
Portugal no centro da estratégia atlântica
A evolução da operação portuguesa ganha ainda maior importância quando enquadrada na estratégia global da companhia.
A retirada do MSC Euribia do Dubai levou a MSC a procurar alternativas e voltou a colocar o Atlântico no centro das atenções.
Para Portugal, esta mudança poderá revelar-se particularmente interessante.
O Funchal assume uma posição reforçada na operação de inverno e Lisboa mantém-se como um dos principais portos de embarque para o mercado nacional.
Mais do que uma simples alteração de itinerários, está em causa uma mudança na geografia da oferta.
Portugal tem condições para deixar de ser apenas um destino visitado durante um cruzeiro e assumir cada vez mais o papel de ponto de partida para grandes viagens.
Essa transformação é particularmente relevante para o segmento de maior poder de compra, que procura cada vez mais experiências completas, simples de organizar e capazes de combinar diferentes destinos numa única viagem.

Uma nova dimensão para a experiência premium
O crescimento da MSC não se faz apenas através do número de navios ou destinos.
O segmento premium e de luxo ganha igualmente espaço dentro da estratégia do grupo.
A expansão do MSC Yacht Club, conceito exclusivo da companhia, acompanha uma procura crescente por experiências mais personalizadas, com maior privacidade e serviço diferenciado.
É uma mudança importante.
O luxo no mar já não se mede apenas pela dimensão do navio ou pela quantidade de serviços disponíveis. Mede-se também pela possibilidade de controlar o ritmo da viagem, escolher o grau de privacidade e transformar o tempo a bordo numa extensão da experiência de destino.
Para este viajante, a viagem começa antes do embarque e continua muito depois de regressar a casa.
A escolha do itinerário, o tipo de cabine, o serviço, a gastronomia, as experiências em terra e a possibilidade de evitar os circuitos mais saturados fazem parte de uma mesma equação.
Uma frota pensada para uma indústria em transformação
A expansão da MSC acompanha esta evolução da procura.
O MSC World Asia será o 24.º navio da companhia e deverá entrar em operação no final de 2026.
Até 2035 estão previstos mais 12 navios, numa expansão que confirma a dimensão do investimento que a companhia está a fazer no futuro dos cruzeiros.
Mas uma frota maior significa também novos desafios.
Quanto maior é a capacidade de transportar passageiros, maior é a necessidade de trabalhar em conjunto com os destinos para garantir que o crescimento não se transforma numa experiência massificada e pouco diferenciadora.
É precisamente aqui que a visão de Eduardo Cabrita ganha particular interesse.
A questão já não é apenas quantas pessoas conseguem viajar.
É como, quando e para onde essas pessoas viajam.
Distribuir melhor os visitantes, utilizar tecnologia para gerir os fluxos, criar novos itinerários e explorar destinos em épocas diferentes poderá ser tão importante para a qualidade da experiência como aquilo que acontece dentro do próprio navio.
O futuro pode estar na forma como viajamos
A indústria dos cruzeiros está, assim, perante um paradoxo interessante.
Nunca houve tantos navios, tantos itinerários e tantas possibilidades de viajar. E, ao mesmo tempo, nunca foi tão importante evitar que essa abundância transforme os destinos em lugares saturados.
Eduardo Cabrita deixa uma ideia particularmente clara: o crescimento do turismo não parece ser reversível.
A resposta terá de estar na capacidade dos destinos para o gerir.
Para uma indústria que procura cada vez mais clientes de maior valor e experiências mais sofisticadas, esta poderá ser uma das grandes questões da próxima década.
O futuro do turismo poderá não passar por receber menos pessoas.
Poderá passar por distribuí-las melhor, recebê-las melhor e proporcionar-lhes experiências que justifiquem a viagem.
E, nesse futuro, Portugal tem uma oportunidade particularmente interessante: deixar de ser apenas uma escala no Atlântico para se afirmar cada vez mais como ponto de partida para descobrir o mundo.




