Solférias prepara 2027 num mercado onde o preço volta a pesar nas decisões

O Egito destronou Cabo Verde nas vendas de agosto, o Brasil esgotou a operação de Réveillon e um novo destino de médio curso está a ser negociado para o verão de 2027. Mas, num ano marcado pela pressão sobre os custos, a Solférias admite uma rentabilidade inferior à inicialmente prevista.

por Sílvia Guimarães

A Solférias prepara a próxima temporada de verão num cenário em que vender continua a ser importante, mas já não chega. A pressão sobre os custos, a evolução do preço do jet fuel e uma maior sensibilidade dos consumidores ao valor final das viagens estão a obrigar o operador turístico a olhar para 2027 com uma estratégia mais ajustada à realidade do mercado.

Sónia Regateiro, diretora de Operações da Solférias, admite que o atual contexto deverá continuar a condicionar o setor. “A procura é tanta para o jet fuel que não vai descer. A tendência é de aumento, não é de redução, mesmo que a guerra acabe amanhã”, afirmou.

A consequência, na sua perspetiva, será inevitavelmente sentida pelo consumidor. “Com esta subida de preços sabemos que o mercado se vai ressentir”, explicou, lembrando que, perante o aumento das despesas essenciais, as viagens podem acabar por ser uma das rubricas onde as famílias reduzem os seus gastos.

É neste contexto que a Solférias está já a desenhar o verão de 2027. O operador pretende repetir a operação charter para Maceió, à partida de Lisboa, realizada este ano, embora a decisão ainda dependa da conclusão das negociações com a companhia aérea.

“Não podemos anunciar porque não temos a negociação finalizada com a companhia aérea”, explicou Sónia Regateiro.

A empresa prepara, contudo, mais uma novidade. Está em negociação uma nova operação charter de médio curso para o verão de 2027, cujo destino ainda não foi revelado.

“Se tudo correr bem, vai haver mais uma novidade da Solférias para o verão de 2027”, avançou a responsável.

Egito ultrapassa Cabo Verde

Se 2027 começa a ganhar forma, os resultados deste verão já deixaram uma mudança particularmente significativa no mapa de vendas da Solférias.

Pela primeira vez na história do operador, o Egito foi o destino número um em agosto, ultrapassando Cabo Verde, que tradicionalmente ocupa essa posição.

“Foi um marco histórico. Cabo Verde sempre foi o nosso número 1”, reconheceu Sónia Regateiro.

A subida do Egito está relacionada também com o reforço da programação, que chegou este ano às cinco operações semanais. Ao mesmo tempo, a oferta para Cabo Verde foi inferior à de 2025, nomeadamente pela ausência da operação exclusiva Porto-Sal realizada no ano anterior.

A evolução confirma a importância que o Egito ganhou dentro da programação da Solférias, embora nem todas as operações tenham tido o mesmo desempenho. El Alamein, na Costa Norte, enfrentou maiores dificuldades, sobretudo devido ao posicionamento de preço.

“É um produto bastante caro. Tenho imensa pena porque é um produto de turismo fantástico, com praias fantásticas, mas os hotéis são caros”, explicou a responsável. “Com o impacto do aumento do fuel e a guerra, foi uma operação que foi penalizada.”

Ainda assim, a avaliação global da programação mantém-se positiva: “As operações são todas positivas, umas melhores, outras piores.”

Vendas fortes no Réveillon

Se o verão trouxe sinais de mudança, o comportamento das vendas para o final do ano mostra que há destinos que continuam a gerar uma procura particularmente forte.

No Brasil, a Solférias já esgotou os três charters previstos para o Réveillon, com operações para Maceió, Salvador e Natal.

“O Brasil está completamente vendido”, revelou Sónia Regateiro.

Também Senegal e São Tomé já não têm disponibilidade. Cabo Verde encontra-se igualmente praticamente esgotado, restando apenas quatro lugares para a partida de 27 de dezembro.

Há ainda oferta para o Funchal e São Miguel, enquanto a operação para o Dubai permanece condicionada pelo contexto geopolítico e pelas recomendações de viagem em vigor.

Menos crescimento, mas sem perdas

O desempenho comercial não deverá, contudo, traduzir-se no crescimento inicialmente projetado para 2026.

A expectativa atual é que a Solférias termine o ano com um volume de vendas semelhante ao de 2025, ficando abaixo do crescimento de dois dígitos previsto no início do exercício.

A diferença estará sobretudo na rentabilidade.

“Não vamos ganhar o que queríamos. Vamos ganhar um bocadinho menos, mas não há perdas”, afirmou Sónia Regateiro.

A responsável aponta a instabilidade geopolítica e o aumento dos custos do combustível como alguns dos fatores que mais pressionaram o exercício, num mercado onde a necessidade de recorrer a promoções para estimular a procura acabou também por limitar as margens.

A Solférias deverá, assim, fechar 2026 sem o crescimento inicialmente ambicionado, mas mantendo resultados positivos.

Um mercado mais sensível

O comportamento do consumidor é uma das principais preocupações para a próxima temporada. Depois de um ano em que o preço assumiu um peso crescente na decisão de compra, Sónia Regateiro considera que os operadores terão de adaptar a oferta às novas condições.

“Com esta subida de preços sabemos que o mercado se vai ressentir”, afirmou, defendendo que o setor terá de ajustar a sua oferta às dificuldades que se perspetivam para 2027.

A própria realização do encontro Bye Bye Verão, que substituiu este ano o habitual evento de antecipação do Réveillon, refletiu esse contexto. A Solférias ponderou inclusivamente não realizar o evento por razões de contenção de custos.

“Ponderámos não fazer de todo as festas por uma questão de contenção de custos”, revelou a responsável. Ainda assim, a empresa decidiu manter o contacto com os agentes de viagens, porque, nas suas palavras, “não podíamos deixar de chegar ao mercado e agradecer aos agentes de viagens pelo esforço de mais um ano muito duro para todo o trade em geral”.

Entre uma procura que continua a existir e um consumidor cada vez mais atento ao preço, a Solférias prepara agora o próximo verão com duas certezas: algumas das operações que funcionaram deverão continuar e haverá espaço para uma nova aposta.

O destino que poderá protagonizar essa novidade permanece, para já, em segredo. A resposta deverá chegar quando as negociações com as companhias aéreas estiverem concluídas.