Escapadinhas de outono na Alemanha: cinco cidades repletas de história e charme

Freiburg @ DZT - Francesco Carovillano

Fora das principais rotas turísticas, há destinos a curta distância dos principais aeroportos que merecem mesmo uma visita. Além de património histórico, são também lugares com muitas estórias para conhecer. Sabia que Dostoiévski se arruinou no casino de Wiesbaden? Que o sal foi o “ouro branco” que enriqueceu Lübeck? Que o bairro social mais antigo do mundo fica em Augsburg e os residentes pagam 0,88 €? A não perder, na próxima vigem à Alemanha.

Freiburg

É a cidade com mais dias de sol em toda a Alemanha e, por isso, diz-se, especialmente alegre e animada. Fica a menos de duas horas do aeroporto Karlsruhe/Baden-Baden (servido por voos low cost desde o Porto, por exemplo) e é a porta de entrada na Floresta Negra, que muitos consideram um dos lugares mais belos do país.

Deliciosos produtos da dita Floresta Negra, como queijos e presuntos, podem ser degustados no mercado diário na Münsterplatz, com a bonita Casa dos Mercadores, em tempos posto aduaneiro e hoje local de eventos. Situa-se a poucos passos do marco da cidade, a Catedral, construção imponente com vários estilos, pois demorou mais de 300 anos a ser edificada, magníficos vitrais, e que também serve de miradouro, do alto da sua torre de 116 metros de altura – isto para quem tiver coragem de subir 333 degraus…

As torres Schwabentor e Martinstor, portas da cidade medievais, são outras edificações que fazem viajar no tempo, tal como os “bächle”, canais de água junto aos passeios que remontam ao século XII. Serviam para apagar incêndios, atualmente são uma atração muito apreciada e com significado: diz a tradição que quem lá puser o pé casará com um natural de Freiburg… ou regressará à cidade um dia. Lendas à parte, vale mesmo a pena ir e regressar.

Wiesbaden @ Francesco Carovillano

Wiesbaden

Basta uma hora de comboio de Frankfurt para chegar a Wiesbaden, conhecida estância termal e uma das mais antigas da Europa. A qualidade das suas águas e o ambiente requintado e glamoroso atraíram em tempos a alta sociedade e muitos artistas, desde Sissi, imperatriz da Áustria, a Mark Twain, Balzac, Brahms, Wagner ou Stravinsky, entre muitos outros.

Todos terão guardado excelentes memórias das respetivas estadias… exceto Fiódor Dostoiévski, que terá perdido todo o seu dinheiro na roleta do elegante casino e, por isso, foi obrigado pelo editor a escrever O Jogador, ao que consta num prazo recorde. O casino, um dos mais antigos da Alemanha, continua em funcionamento e fica na Kurhaus, com sumptuosos salões que hoje funcionam como sala de espetáculos, recebendo concertos e bailado, por exemplo.

Para beneficiar das qualidades da água, oriundas de 26 nascentes e especialmente indicadas para quem sofre de doenças reumáticas e ortopédicas, há que cumprir o “ritual” de beber um copinho na fonte Kochbrunnen, por sinal o símbolo da cidade. Melhores resultados serão conseguidos na piscina Kaiser-Friedrich-Therme, em estilo Art Nouveau, que chega aos 39ºC.

Outra piscina (exterior e aquecida) a não perder é Opelbad, em estilo Bauhaus, situada no topo da colina de Neroberg, ao qual se acede em apenas cinco minutos de funicular. A vista é magnífica, sobre a cidade e as vinhas vizinhas.

Bona

Bona

Foi capital da Alemanha entre 1949 e 1991, mas é igualmente famosa por ser a terra natal de Ludwig van Beethoven, o compositor clássico mais escutado em todo o mundo (quem não conhece o Hino à Alegria da sua 9ª Sinfonia?). No centro da cidade, a casa onde nasceu em 1770 foi transformada num museu em 1893, a Beethoven-Haus, recentemente ampliada. A coleção, a mais importante em todo o mundo, inclui manuscritos originais, retratos, mobiliário, instrumentos musicais e objetos como os aparelhos auditivos usados pelo compositor.

Anualmente, Beethoven é celebrado num festival que conta com a participação de reputados solistas e orquestras e dá a conhecer jovens talentos. Foi criado em 1845, com o apoio do também compositor Franz Liszt, seu grande admirador. Decorre durante um mês, este ano até 3 de outubro.

Situada a cerca de 70 quilómetros de Dusseldorf, servida por voos diretos desde Portugal, Bona é também uma cidade com muitos museus a visitar, designadamente o Kunstmuseum, com um dos acervos mais completos do expressionismo alemão, além de arte contemporânea; a Haus der Geschichte, ou Casa da História, que proporciona uma viagem no tempo ao período entre o final da II Guerra Mundial e a reunificação; e o Bundeskunsthalle, Salão de Arte e Exposições, com interessantes exposições temporárias ao longo do ano, por exemplo Uma história cultural do trabalho sexual, até 25 de outubro; e Nunca mais! Contra o esquecimento dos crimes do regime nazi, de 11 de outubro até maio.

Lübeck @ Francesco Carovillano

Lübeck

Fundada em 1143, a cerca de uma hora de comboio de Hamburgo, foi a “Rainha da Liga Hanseática”, uma confederação comercial do norte da Europa tão poderosa que poderia destituir reis, por exemplo, ou mesmo financiar guerras. Conhecer detalhes da sua história passa por uma visita ao Holsten Tor (ou Portão de Holsten), estrutura gótica de tijolos vermelhos construída entre 1464 e 1478 para servir de defesa militar e como símbolo da riqueza da cidade. Maior ícone de Lübeck e um dos edifícios alemães mais conhecidos mundialmente, acolhe um museu com modelos de navios históricos, armas ou mercadorias como bacalhau ou sal.

O sal, aliás, foi considerado “ouro branco”: essencial para conservar alimentos como peixe, esteve na base da riqueza da cidade. Era guardado nos Salzspeicher, seis armazéns de tijolos datados dos séculos XVI a XVIII, perto do Portão de Holsten. Ambos fazem parte do vasto Património UNESCO da cidade, que inclui várias igrejas e a Câmara Municipal.

A literatura também é tema de relevo, já que Thomas Mann, um dos escritores alemães mais influentes do século XX e que em 1929 conquistou o Prémio Nobel da Literatura com a obra Os Buddenbrook, nasceu em Lübeck em 1875. A sua casa-museu, Buddenbrook House está a sofrer obras de remodelação, pelo que saber mais sobre a obra e o homem requer a ida a outros espaços – por exemplo, ao Museu de St. Annen onde, a partir de 30 de outubro, decorre a exposição “Assuntos de Família”, que mergulha no mundo dos Buddenbrooks.

Augsburg @ Volker Preusser

Augsburg

Esta cidade a cerca de 45 minutos de comboio de Munique é uma das mais antigas da Alemanha, tendo sido fundada pelos romanos em 15 a.C., e reserva interessantes surpresas.

Uma delas é o facto de, a partir do século XV, ter desenvolvido uma engenharia hidráulica inovadora que separava a água potável da água não potável, centenas de anos antes de outras cidades compreenderem como o saneamento é fundamental. Tal sistema foi classificado pela UNESCO como Património Mundial em 2019.

Outra surgiu na sequência da enorme riqueza da cidade quando dinastias de banqueiros a transformaram num centro financeiro da Europa. É o caso da família Fugger: no início do século XVI, Jakob Fugger, «o Rico», controlava minas de prata e cobre em todo o continente, financiou imperadores como Carlos V e a eleição papal de Leão X. Financiou, também, a Fuggerei, o complexo de habitação social mais antigo do mundo ainda em funcionamento: os 150 residentes pagam o equivalente a 0,88 €, mais três orações diárias pelas almas dos fundadores.

A Fuggerei é hoje um dos atrativos da cidade, tal como a Câmara Municipal, obra-prima renascentista, a vizinha Perlachturm, torre de 70 metros que oferece vistas sobre os Alpes, o belo Palácio Schaezler, joia do rococó que acolhe várias coleções de arte, ou a Casa de Leopold Mozart, que foi compositor, violinista, professor de música… muito mais do que o pai de Wolfgang Amadeus.