Reportagem de viagem: São Tomé e Príncipe onde o tempo existe (Foto...

Reportagem de viagem: São Tomé e Príncipe onde o tempo existe (Foto galeria)

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por Sandra Silveira

 

São Tomé e Príncipe tem vindo a destacar-se na preferência dos portugueses no momento de escolherem as próximas férias, reflexo no “número de passageiros desde o último ano a aumentar bastante para o destino São Tomé, representando cada vez mais um maior share na faturação” do operador Solférias, referiu Pedro Ferreira após uma viagem de familiarização naquele destino com uma dezena de agentes de viagem, para a qual a VIAJAR também foi convidada.

O combinado São Tomé e Ilhéu das Rolas tem vindo a perder terreno para o pacote São Tomé e ilha Príncipe “um dos combinados que tem crescido, embora também haja quem faça o combinado dos três, apesar de representar menos percentagem.”
O aumento de infraestruturas locais, nomeadamente pelo grupo HBD, que aposta na sustentabilidade integrando-se na natureza e mantendo-a como que intacta, tem contribuído para manter o equilíbrio ecológico e paisagístico dum cenário idílico retirado a papel químico do nosso imaginário.

São Tomé

A pouco mais de 6 horas de distância e com a mesma hora, o que evita o jet-lag, entre o Oceano Atlântico e o Golfo da Guiné, aterramos em São Tomé e somos bafejados com uma onda de ar quente e húmido típico de um clima equatorial.

De origem vulcânica, São Tomé foi descoberta por navegadores portugueses no século XV e permaneceu uma colónia portuguesa até à sua independência em 1975 onde proliferou a indústria do cacau, do café e, posteriormente, a agricultura que funcionava nas Roças, hoje consideradas património histórico e arquitetónico do arquipélago. Abandonadas, algumas Roças foram engolidas pela selva enquanto outras foram recuperadas e funcionam como comunidades, permitindo a visita e conhecer um pouco do seu passado. Perto da capital, com o mesmo nome da ilha, encontra-se uma das roças mais antigas, a Roça Monte Café, outrora a maior produtora de café do país onde hoje residem cerca de 250 famílias. No seu tempo, e tal como em todas as roças, havia um hospital, hoje desativado, mas mantém a igreja e a escola, ainda em funcionamento. Mais a sul, a Roça S. João de Angolares foi transformada em Pousada, embora mantendo a traça colonial, e prepara-se para recuperar o antigo hospital como forma de aumentar a oferta de camas. Propriedade de João Carlos Silva da “Roça com os Tachos”, o restaurante com vista para o mar e para a selva dá a conhecer os sabores típicos da ilha através de uma experiência gastronómica de assinatura. O complexo oferece ainda uma residência artística com exposições de arte que contam a história do país.
A beleza natural de um país tropical ressalta a cada curva e contra curva da estrada com a Cascata de S. Nicolau a insurgir-se e a convidar a mergulhos. Mas também é possível fazer um passeio pedestre ou aproveitar para o birdwatching e descobrir cerca de 30 espécies endémicas. Rodeada de praias de água quente, transparente e de palmeiras, cada uma tem um encanto a ser descoberto e um mergulho reservado porque o calor e a humidade que se faz sentir surge como um convite irrecusável. A possibilidade de fazer snorkling, observação de baleias e golfinhos ou passeios de barco também está à vista.
Cerca de 30% do território da ilha pertence ao Parque Natural Obô, uma área protegida onde se encontra o Jardim Botânico, no qual o guia nos dá a conhecer a flora com algumas espécies endémicas. Este local é também ponto de partida para caminhadas como a do Pico de São Tomé, o ponto mais alto da ilha.
A gastronomia é um dos pontos fortes do país. Rico em peixe onde miúdos e graúdos pescam à linha, a partir de pirogas, e de frutas e legumes tropicais, o palato é que mais sai beneficiado nesta imersão de sabores frescos e diferentes. Matabala, cajamanga, fruta-pão, banana-pão, peixe fumo, búzio do mato, o picante fura-cueca ou o prato tradicional calulu, são iguarias a experimentar.

Na Roça Saudade encontra-se a Casa Museu Almada Negreiros, em que a casa onde nasceu um dos maiores artistas do movimento modernista português foi totalmente recuperada dando a conhecer a sua vida e obra, com a oferta complementada com uma galeria de arte e um restaurante, que, como em qualquer outro lugar da ilha, oferece uma vista sobre os encantos em redor.

Rumo ao sul, num percurso de duas horas de carro a partir da capital, entre montanhas verdejantes de um lado e praias calmas ladeadas de palmeiras do outro, vamos passando por vilarejos onde casas de madeira à beira da estrada dão lugar à população que por ali vive. Por entre crianças que acenam ou que pedem “doxi, doxi” quando a carrinha abranda, é possível vislumbrar o dia-a-dia daquele povo. No entanto, a recomendação passa por distribuir material escolar ou roupa em vez das guloseimas.

Ilhéu das Rolas

Antes de chegarmos à Ponta da Baleia onde apanhamos o barco para o Ilhéu das Rolas, a paisagem é cortada por uma elevação de mais de 600 metros. O Pico Cão Grande, de origem vulcânica, impõe-se por entre a densa floresta.

O transfer de barco para o ilhéu demora vinte minutos desembarcando na única unidade hoteleira existente, o Pestana Equador. Aqui, vive uma comunidade de 150 pessoas que subsistem da agricultura, da pesca e do turismo. A meio do ilhéu, o marco da linha imaginária do Equador, que divide os dois hemisférios num mapa mundi representado no chão. A sorte chega a quem o pisar com o pé direito, aconselham-nos.
Para além das praias que rodeiam o ilhéu, do geiser de água salgada ou dos miradouros de cortar a respiração, este é um dos locais escolhidos pelas tartarugas para desovar e onde é possível assistir ao nascimento das crias destas espécies e acompanhar o seu trajeto até ao mar.

Ilha do Príncipe

Num voo de meia hora a partir do aeroporto de São Tomé percorremos os 140 quilómetros que separam as duas ilhas do arquipélago e aterramos no Príncipe. Nesta ilha o sossego impera interrompido apenas pelos barulhos da natureza. Com unicamente 6 mil habitantes (São Tomé tem 600 mil), grande parte da ilha pertence à Reserva Mundial da Biosfera e é um dos lugares ideais para se desligar do telemóvel e do mundo.

Em jipe 4×4 chegamos à Roça Paciência, onde somos transportados para o tempo em que funcionava como uma dependência da Roça Sundy. No seu auge, em que produzia cacau, chegou a ter 250 trabalhadores. Nos aposentos – as senzalas – é possível imaginar as condições precárias em que viviam dez a doze pessoas, num espaço exímio, em que funcionava o sistema cama-quente: um sai, entra outro. O processo de secagem dos produtos era feito através de ardósia sobre uma estrutura com lenha a arder, processo ainda hoje utilizado na Roça para secar ervas e frutos que depois são transformados noutros produtos. Tudo ao natural, num processo biológico e sem químicos.

O Hotel Roça Sundy recuperou a casa colonial e manteve alguma mobília do seu tempo áureo, oferecendo quartos entre a Casa Colonial e a Casa da Plantação, onde o denominador comum é a comunidade que vive dentro da roça, cujas crianças abraçam quem chega em busca de atenção. Curiosamente, foi aqui que a Teoria da Relatividade de Einstein foi confirmada pelo astrofísico britânico Arthur Eddington em 1919.
Até ao final do ano a roça contará com uma piscina, sendo disponibilizado transfer gratuito para a praia.

Concessionado ao grupo HBD, que aposta num turismo sustentável, a Roça Paciência e Sundy são um projeto que promete trazer riqueza para a ilha e seus habitantes mantendo o seu cartão de visita: a beleza natural.
Para além das Roças, o grupo sul-africano detém ainda o boutique hotel Omali, na capital, com 30 quartos, o Bom Bom Resort, com 19 bungalows, alguns mesmo na praia, e o mais recente Sundy Praia Lodge com as suas 15 villas, estes, na Ilha do Príncipe.
O grupo português Pestana também está presente na ilha onde para além da unidade no ilhéu das Rolas conta na capital com o cinco estrelas, Pestana São Tomé e o quatro estrelas Miramar by Pestana.

São Tomé e Príncipe é o segundo país africano mais pequeno e um dos mais seguros. Apesar das discrepâncias o povo é feliz. Simpático. Caloroso. Mesmo com as condições em que vivem ninguém passa fome. A fruta cai das árvores e há peixe no mar. Os dias prolongam-se com o lema leve-leve que tanto caracteriza o país. Não há stress, nem pressas. Tudo se faz. E o tempo existe.
Mais que sol e praia, turismo de natureza, gastronómico ou arquitetónico, São Tomé e Príncipe é uma experiência aos sentidos, uma descoberta de cheiros, cores e sons. São vibrações sensoriais que pululam na vontade de não querer partir, ou com a certeza de que é um destino a regressar.

 

Recomendações/Informações:

Evite bebidas com gelo e prefira a água engarrafada.

Recomenda-se o repelente, principalmente ao amanhecer e entardecer.

Utilize protetor solar e um chapéu.

A moeda local é a Dobra. Embora não exista ATM’s na ilha, o Euro é aceite em todo o lado.

Por cada noite é cobrada uma taxa turística de 3 euros.

 

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