Este roteiro é um convite para descobrir um Marrocos que sabe ser imperial e imponente, mas que se revela profundamente humano, acolhedor e irresistivelmente cinematográfico em cada detalhe.
Há uma certa mística no modo como o Marrocos contemporâneo decidiu encurtar as suas distâncias. Não se trata apenas de velocidade pura, mas de uma nova forma de elegância em movimento que redefine a geografia do Magrebe. O Al Boraq, o veloz comboio de alta velocidade que serpenteia a costa, tornou-se o sistema nervoso de um país que se recusa a escolher entre a tradição e o vanguardismo. Para o viajante que parte de Portugal, beneficiando da conveniência de voos diretos de Lisboa ou do Porto, Casablanca, Rabat e Tânger deixaram de ser pontos remotos no mapa. Transformaram-se em capítulos fluidos de uma mesma obra de luxo, contraste e sofisticação técnica.

CASABLANCA: METRÓPOLE DO VIDRO E DA PEDRA. Casablanca não se entrega ao primeiro olhar, ela conquista pela escala monumental. Muitas vezes reduzida ao seu papel de motor económico e financeiro, a cidade é, na verdade, um museu vivo de arquitetura Mourisca e Art Déco. Ao caminhar pelas amplas avenidas do centro, sentimos o peso de uma era cosmopolita que se funde harmoniosamente com o vidro e o aço dos novos arranha-céus. É uma cidade que respira ambição.

O ponto de gravidade absoluta é a Mesquita Hassan II. Mais do que um monumento religioso, é uma proeza da vontade humana e da engenharia moderna, com o seu minarete de 210 metros a servir de farol espiritual sobre a imensidão do Atlântico. Ali, o mármore trabalhado e o minucioso azulejo (zellige) encontram a espuma das ondas, criando um diálogo constante entre o homem e o oceano.
O verdadeiro luxo de Casablanca, contudo, descobre-se ao entardecer na Corniche de Ain Diab. Entre o tilintar dos copos nos terraços mais exclusivos e a brisa salgada que arrefece o asfalto ainda quente, percebe-se que esta é a cidade de quem ousa projetar o futuro sem nunca largar a mão da sua história milenar.

RABAT: ARISTOCRÁTICO REFÚGIO DA CALMA. Se Casablanca é o coração que bate forte, Rabat é a mente que pondera com serenidade. A apenas uma hora de distância, no conforto silencioso e impecável da primeira classe do Al Boraq, a capital marroquina recebe o visitante com uma luz mais suave, quase filtrada pela bruma marinha. Aqui, o ritmo não é imposto pelo comércio, mas sim ditado pela diplomacia, pela herança real e por uma etiqueta que parece inerente à própria terra. É uma cidade de jardins impecavelmente cuidados, largas alamedas ladeadas por palmeiras e um silêncio que, nos tempos modernos, parece um privilégio absoluto.

O Mausoléu de Mohammed V e a Torres Hassan oferecem uma geometria perfeita para o olhar atento, mas a alma profunda de Rabat esconde-se na Kasbah dos Oudaias. Ao entrar pelas suas portas de pedra monumental, somos transportados para um labirinto de cal branca e azul-cobalto, onde as buganvílias explodem em tons de rosa contra as paredes imaculadas. Beber um chá de hortelã no Café Maure, com os olhos postos no encontro hipnótico do rio Bou Regreg com o mar, é entender finalmente o conceito marroquino de “tempo”: algo que não se gasta nem se desperdiça, mas que se saboreia com a paciência infinita de quem sabe que o luxo reside, acima de tudo, na ausência de pressa.

TÂNGER: FRONTEIRA DO MITO E DO DESEJO. A viagem culmina no extremo norte, onde a geografia se torna poética e o horizonte parece carregar o peso de mil lendas. Tânger já não é apenas o porto de entrada de espiões, contrabandistas e escritores da Beat Generation; é uma cidade que renasceu com uma face lavada, limpando as suas janelas para o Estreito de Gibraltar. A luz aqui é diferente de qualquer outra parte do mundo – mais crua, mais branca, uma luminosidade quase mística que seduziu mestres como Matisse e Delacroix.
A Medina de Tânger é um organismo vivo, um reduto de autenticidade onde o prazer se esconde nos detalhes mais discretos: o pátio secreto de um riad meticulosamente restaurado, o toque delicado de um caftã de seda pura num atelier escondido num beco, ou o aroma inebriante de especiarias raras que flutua junto ao Petit Socco. Fora das muralhas, o Cabo Spartel marca o ponto exato onde o Atlântico e o Mediterrâneo se tocam num beijo eterno.
Tânger é o romantismo em estado puro, um lugar onde a Europa se avista ao longe, mas onde África nos abraça com uma intensidade cultural inesquecível e avassaladora.

Texto: Sílvia Guimarães
*A jornalista viajou a convite da Bestravel




