APAVT leva a Marraquexe o debate sobre o futuro do turismo e assinala 75 anos de história

O 51.º Congresso da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo realiza-se de 5 a 7 de dezembro, em Marraquexe, com uma agenda centrada na estratégia para o setor, nas infraestruturas, na cultura e na relação entre visitantes e comunidades locais. A apresentação do programa ficou também marcada pela inauguração da nova sede da associação e pelo lançamento de uma publicação comemorativa dos seus 75 anos.

por Sílvia Guimarães

O futuro do turismo português estará no centro do 51.º Congresso da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT), que reúne profissionais e representantes institucionais de 5 a 7 de dezembro, em Marraquexe, sob o tema «Culturas Diferentes, Pessoas Mais Próximas». A revisão do enquadramento legal das regiões de turismo, os investimentos aeroportuários, a privatização da TAP e a Estratégia Turismo 2035 integram uma agenda que procura colocar em perspetiva os desafios e as oportunidades de desenvolvimento da atividade turística.

O programa foi apresentado a 28 de outubro por Pedro Costa Ferreira, presidente da APAVT, numa sessão que reuniu três momentos relevantes para a associação: a divulgação dos conteúdos do congresso, a inauguração das novas instalações, em Miraflores, e a apresentação do livro que assinala os 75 anos da instituição, fundada em 1950.

À data da apresentação, estavam inscritos cerca de 750 participantes. A associação espera que a divulgação do programa contribua para reforçar a adesão a um encontro que pretende ultrapassar as questões estritamente ligadas à distribuição turística. «Temos feito do congresso, não um congresso de agências de viagens, mas um congresso do turismo organizado por agências de viagens», afirmou Pedro Costa Ferreira, sublinhando a ambição de promover uma discussão abrangente sobre o setor.

Três dias para questionar, definir estratégias e inspirar

A programação está estruturada em três eixos — desafio, estratégia e inspiração —, que correspondem às jornadas de 5, 6 e 7 de dezembro.

O primeiro dia propõe uma reflexão sobre os modelos estabelecidos e a capacidade de antecipar as transformações do turismo. Rita Marques, antiga secretária de Estado do Turismo e diretora do Tourism Futures Center da Porto Business School, abre os trabalhos com uma intervenção anterior à sessão institucional, uma novidade nesta edição.

A abertura oficial contará com representantes da APAVT, da Confederação do Turismo de Portugal, das autoridades locais e do Governo. Segue-se uma intervenção de Paulo Portas, antigo governante, dedicada às perspetivas da economia, da democracia, da Europa e do turismo. A escolha procura proporcionar um enquadramento mais amplo dos fatores políticos e económicos que poderão influenciar a evolução da atividade nos próximos anos.

A jornada de 6 de dezembro será dedicada à estratégia e concentrará vários dos assuntos com maior impacto no funcionamento do setor. A inovação na distribuição turística estará em destaque através do programa Push4Tourism, desenvolvido pela APAVT em parceria com a GesEntrepreneur, numa sessão que contará com Sérgio Guerreiro, do Turismo de Portugal, e Miguel Gonçalves, managing director daquela entidade parceira.

A infraestrutura aeroportuária e o futuro da TAP constituem outro dos pontos centrais. Hugo Espírito Santo, secretário de Estado das Infraestruturas, participará numa conversa sobre os investimentos previstos, o funcionamento dos aeroportos nacionais e o processo de privatização da companhia aérea. A discussão deverá permitir avaliar a evolução dos temas abordados na edição anterior do congresso e identificar os próximos passos.

Também a revisão da Lei n.º 33/2013, que enquadra o regime jurídico das áreas regionais de turismo e das respetivas entidades, terá lugar próprio no programa. Pedro Machado, secretário de Estado do Turismo, Comércio e Serviços, António Valle, presidente da Agência de Promoção de Lisboa, e Luís Pedro Martins, presidente da Turismo do Porto e Norte de Portugal, participam no debate moderado pela jornalista Rosário Lira.

A APAVT pretende obter esclarecimentos sobre as orientações da futura proposta legislativa, em particular no que respeita à organização regional do turismo e ao financiamento da promoção dos destinos. Pedro Costa Ferreira reconheceu que existe expectativa em torno deste processo, observando que «muita gente esperava que a lei já estivesse cá fora».

Cultura e comunidades locais no centro da discussão

A valorização cultural e a relação entre turismo e qualidade de vida dos residentes são igualmente temas de destaque. Num contexto em que vários destinos enfrentam dificuldades em conciliar a atividade turística com as necessidades das populações, o congresso propõe discutir formas de compatibilizar o crescimento económico com uma distribuição mais equilibrada dos benefícios gerados pelo setor.

Para Pedro Costa Ferreira, o desafio passa por não dissociar o desenvolvimento dos destinos das condições de vida de quem neles reside. «Não podemos impedir as cidades e as regiões de manter o crescimento e o desenvolvimento económico», afirmou o presidente da APAVT, defendendo a necessidade de encontrar respostas para as pressões sentidas pelas comunidades locais.

A cultura será analisada enquanto fator de diferenciação e instrumento de atração de novos públicos. Gastronomia, história e património são algumas das dimensões que a associação pretende ver mais integradas na oferta turística, sobretudo em territórios que ainda procuram consolidar a sua posição no mercado.

O painel «Cultura, fator de atração das próximas procuras» reunirá Catarina Valença, administradora da Spira, Álvaro Covões, administrador da Everything Is New, e Sónia Santiago, diretora de comunicação de O Valor do Tempo.

Na perspetiva de Pedro Costa Ferreira, existe margem para reforçar a ligação entre a cultura e a experiência turística em Portugal. «Se há algum vetor de atração turística que não tem tido êxito na integração da oferta turística portuguesa, é a cultura», considerou, apontando a necessidade de aproveitar melhor os recursos culturais do país para diversificar a procura e ampliar as oportunidades de desenvolvimento regional.

A Estratégia Turismo 2035 será outro dos momentos importantes da segunda jornada. A associação pretende conhecer as linhas orientadoras do próximo referencial estratégico nacional e discutir a forma como estas poderão traduzir-se em medidas concretas. Mais do que o crescimento quantitativo, a APAVT defende uma abordagem centrada na criação de valor. «Eu pessoalmente espero que [a Estratégia 2035] esteja muito mais ligada a valor acrescentado do que a hóspedes, dormidas ou mesmo a receitas», afirmou o presidente da associação.

O último dia será dedicado à inspiração e às perspetivas internacionais. Paul de Villiers, senior vice president Travel Sellers Europe da Amadeus, abordará tendências e desafios futuros da atividade, seguindo-se uma intervenção de Luís Amado, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, sobre a reorganização do sistema internacional e o futuro da Europa.

A organização pretende, assim, encerrar os trabalhos com diferentes perspetivas sobre as transformações globais e as suas implicações para o turismo. O programa inclui ainda momentos de convívio e contacto com o destino anfitrião, nomeadamente jantares patrocinados pelo Turismo de Marrocos e pela TAP Air Portugal, bem como uma visita à medina de Marraquexe.

Nova sede e livro comemorativo assinalam os 75 anos da associação

A apresentação do congresso ficou também associada a dois marcos institucionais da APAVT. Em Miraflores, a associação inaugurou a sua nova sede, concebida para reforçar a proximidade com os associados e disponibilizar melhores condições para o trabalho, as reuniões e a realização de iniciativas profissionais.

As instalações incluem salas de reunião, áreas de trabalho, espaços para eventos e um anfiteatro equipado para acolher encontros presenciais e iniciativas com participantes à distância. O objetivo é criar um espaço funcional, adaptado às necessidades da associação e dos seus membros.

«É um espaço de trabalho, foi concebido para os associados estarem mais próximos da associação», explicou Pedro Costa Ferreira, que considera a conclusão do projeto um dos marcos do final do seu mandato. A nova sede pretende assegurar condições de funcionamento modernas tanto para os associados como para a direção que assumirá a liderança da instituição.

O segundo momento comemorativo foi o lançamento do livro dedicado aos 75 anos da APAVT. Para além de recuperar datas, antigos presidentes, sedes e congressos, a publicação reúne testemunhos de pessoas e entidades que acompanharam a evolução da associação, procurando reconstruir o seu percurso através de diferentes experiências e perspetivas.

«Tentámos que a história da APAVT fosse contada pelos diversos players que interagiram com a associação», afirmou Pedro Costa Ferreira. A obra encerra simbolicamente as comemorações do aniversário, dando destaque não apenas à evolução institucional, mas também às relações construídas ao longo de várias décadas com os diferentes intervenientes do turismo.

A sessão decorreu numa fase de transição na liderança da associação. As eleições para os novos órgãos sociais estavam agendadas para 2 de novembro, com uma única lista, encabeçada por Marco Sequeira. Segundo Pedro Costa Ferreira, o processo de passagem de responsabilidades já estava em curso, num esforço para assegurar a continuidade dos projetos e da atividade associativa.

Ao concluir um ciclo de quase 15 anos na presidência, o responsável manifestou confiança na equipa que lhe sucederá. «Estou muito otimista relativamente ao futuro da associação», afirmou.

Entre o balanço de uma história iniciada em 1950 e a discussão dos desafios que irão marcar os próximos anos, a APAVT procura, assim, articular a memória do setor com a necessidade de preparar o seu futuro. Em Marraquexe, essa reflexão terá como pano de fundo questões que ultrapassam a atividade das agências de viagens e abrangem a competitividade dos destinos, a valorização cultural, a mobilidade, a sustentabilidade social e a criação de valor para a economia portuguesa.