A quebra da procura turística está a aumentar a preocupação dos empresários, numa altura em que o preço das viagens e as limitações da oferta aérea dificultam a competitividade do arquipélago. As Casas Açorianas pedem uma resposta concreta, enquanto o Governo Regional procura novas oportunidades nos mercados internacionais.
Por Sílvia Guimarães
Visitar os Açores continua a ser o desejo de muitos viajantes, mas transformar essa vontade numa viagem efetiva depende de vários fatores, entre os quais o custo das passagens aéreas e a disponibilidade de ligações. Num território onde o avião é essencial à mobilidade, as dificuldades de acesso acabam por ter consequências que ultrapassam o setor dos transportes e se estendem à economia turística.
É neste contexto que cresce a preocupação com a evolução do turismo regional. A diminuição das dormidas, a necessidade de recuperar visitantes portugueses e as dificuldades em reforçar a oferta aérea estiveram entre os temas centrais do encontro anual das Casas Açorianas, realizado na ilha Terceira.
Gilberto Vieira, presidente da Associação de Turismo em Espaço Rural – Casas Açorianas, alertou para a persistência da tendência negativa. Os dados apresentados no encontro apontavam para 11 meses consecutivos de quebra nas dormidas, com uma diminuição homóloga de 3,1% entre janeiro e agosto de 2026, em contraste com o crescimento registado a nível nacional.
Para os empresários, estes números representam mais do que uma variação estatística. A redução das dormidas pode comprometer a sustentabilidade de pequenos alojamentos, restaurantes e empresas de animação turística, particularmente nas localidades onde a atividade depende fortemente dos visitantes.
A preocupação passa também pela capacidade de recuperar o mercado português, tradicionalmente importante para a região. Quando viajar se torna mais caro ou exige maior planeamento, os Açores podem perder competitividade perante outros destinos que oferecem mais alternativas de transporte.
O preço da viagem começa antes de chegar ao destino
A acessibilidade aérea é, por isso, uma das questões incontornáveis no debate sobre o futuro do turismo açoriano.
A saída da Ryanair das ligações ao arquipélago, no final de março, reduziu as opções disponíveis e voltou a colocar em evidência a necessidade de diversificar a oferta. Ao mesmo tempo, as limitações operacionais do Aeroporto de Lisboa dificultam a criação de novas ligações e o reforço das existentes.
Berta Cabral, secretária regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas, identificou a falta de disponibilidade de horários aeroportuários como um dos obstáculos que mais condicionam a região. A governante resumiu o problema ao afirmar que “é um problema para o país todo, mas os Açores são os mais afetados”.
A questão dos preços também foi reconhecida pelo executivo regional. Berta Cabral admitiu que “há um excesso no valor das tarifas aéreas”, uma realidade que pode afastar potenciais visitantes e dificultar as deslocações dos próprios residentes.
O impacto é particularmente relevante para as famílias que viajam em grupo, para os visitantes que pretendem conhecer várias ilhas e para os turistas que precisam de combinar o transporte aéreo com alojamento e aluguer de viatura.
Assim, a competitividade turística não depende apenas da qualidade da oferta existente nas ilhas. Depende também da facilidade com que os visitantes conseguem chegar, dos custos que têm de suportar e da possibilidade de organizar uma viagem sem que o transporte absorva uma parte excessiva do orçamento.
Novas rotas podem abrir portas, mas não resolvem tudo
Perante os constrangimentos nas ligações ao continente, a diversificação dos mercados internacionais assume uma importância crescente.
Para 2027, estão previstas novas ligações entre Bruxelas e Ponta Delgada, através da Transavia, e entre Newark e o aeroporto das Lajes, na ilha Terceira, operada pela United Airlines.
Estas operações poderão ampliar o acesso ao arquipélago e criar oportunidades para captar visitantes estrangeiros. No entanto, a existência de novas rotas terá de ser acompanhada por promoção dirigida, articulação com os operadores turísticos e propostas que incentivem os visitantes a permanecer mais tempo nas ilhas.
A aposta internacional não dispensa a recuperação do mercado nacional. Pelo contrário, a região precisa de encontrar um equilíbrio entre a conquista de novos públicos e a manutenção dos visitantes portugueses, cuja importância para a economia turística continua a ser significativa.
O desafio está em transformar a disponibilidade de voos em resultados concretos para as empresas locais. Mais ligações podem facilitar a chegada de turistas, mas o benefício económico dependerá também das dormidas, das experiências contratadas e do consumo realizado nas comunidades.
A identidade açoriana como vantagem competitiva
Num mercado turístico cada vez mais disputado, os Açores dispõem de características que vão além da paisagem: a cultura, a gastronomia, as tradições e a ligação entre visitantes e comunidades locais são elementos que podem distinguir o arquipélago de outros destinos.
A presidente da Câmara Municipal da Praia da Vitória, Vânia Ferreira, destacou precisamente a importância de preservar essa identidade, afirmando que “a autenticidade não se fabrica: protege-se e transmite-se”.
A valorização do turismo rural pode contribuir para distribuir melhor os benefícios da atividade económica, apoiar pequenos negócios e criar motivos para visitar localidades menos procuradas. Esta estratégia poderá igualmente ajudar a combater a sazonalidade, incentivando viagens fora dos períodos de maior afluência.
Outra possibilidade passa pela criação de ofertas integradas que reúnam transporte, alojamento, aluguer de viaturas e experiências locais. Para o visitante, esta organização pode simplificar o planeamento e tornar os custos mais previsíveis. Para os empresários, representa uma oportunidade de colaboração e de valorização dos serviços disponíveis.
A questão central é garantir que o crescimento turístico não compromete os recursos naturais e culturais que sustentam a atratividade do destino.
Recuperar a confiança e transformar preocupações em medidas
As Casas Açorianas defendem uma resposta mais eficaz à quebra da procura, com particular atenção à promoção do mercado nacional. O Governo Regional, por seu lado, aposta na diversificação dos mercados, na procura de soluções para as limitações aeroportuárias e na valorização de uma oferta turística de qualidade.
Berta Cabral considera que a situação pode ser ultrapassada, defendendo que o decréscimo é “absolutamente recuperável, desde que seja com sustentabilidade, com qualidade, com uma oferta de experiências autênticas para não descaracterizar os Açores”.
A recuperação, contudo, exige que as diferentes dimensões do problema sejam tratadas em conjunto. A promoção turística perde eficácia quando viajar é demasiado caro; novas rotas têm um impacto limitado se não houver procura suficiente; e o aumento de visitantes não garante benefícios duradouros se as comunidades locais não participarem nesse crescimento.
O momento exige, por isso, uma estratégia capaz de conciliar acessibilidade, competitividade e sustentabilidade. Para os Açores, o desafio não consiste simplesmente em atrair mais turistas, mas em garantir que o arquipélago permanece acessível, que as empresas conseguem manter a sua atividade e que o turismo continua a contribuir para o desenvolvimento das ilhas.
Num território onde a distância é uma realidade permanente, a facilidade de chegar aos Açores é parte integrante da experiência turística e uma condição essencial para o futuro do setor.




