Há lugares no mundo onde o vinho não é apenas uma bebida – é memória, identidade e celebração. A Madeira é um desses lugares. Desde o século XV, apenas 25 anos após os primeiros povoadores chegarem ao arquipélago, já se exportava o vinho ali produzido!. Seis séculos de história que todos os anos renascem com a chegada do outono e a fragrância das uvas maduras.
É no Estreito de Câmara de Lobos, numa das mais pitorescas e férteis freguesias da Madeira, que essa história ganha vida com toda a sua intensidade. A Festa das Vindimas, integrada na Festa do Vinho da Madeira, é um dos eventos mais enraizados e autênticos do calendário cultural madeirense – e uma experiência que qualquer visitante deveria viver pelo menos uma vez.

Entre vinhas e cantigas
A festa começa cedo, bem antes do sol atingir o seu pico. O ar da manhã traz consigo um burburinho inconfundível: passos apressados, instrumentos a afinar, cânticos tradicionais que ecoam pelas ruas empedradas. Junto à Igreja Matriz, grupos folclóricos animam o ambiente com o repertório clássico do cancioneiro popular madeirense e ninguém parece cansar-se.
A animação é genuína. Madeirenses e visitantes misturam-se em igual proporção, o que diz muito sobre a relevância turística desta celebração iniciada em 1963 e que, desde então, cresce em prestígio a cada edição.

Apanha da Uva: tradição nas mãos
Quando as portas das quintas se abrem, centenas de pessoas lançam-se às videiras. Os cachos da famosa tinta negra – casta preponderante na Madeira, pequena, escura e de sabor intenso – são colhidos com cuidado e entusiasmo. Alguns apanhadores levam os cestos até ao lagar. Outros cedem à tentação do gesto mais antigo e mais humano: da mão à boca, numa comunhão direta com a terra.
Não é difícil deixar-se envolver por este espírito. Quem visita, mesmo sem podão nem cesto de vime, acaba por participar – provar uma uva, entoar um verso, sorrir para um estranho que se torna, naquele momento, cúmplice de uma tradição partilhada.

Cortejo Etnográfico
A meio da manhã, o centro do Estreito de Câmara de Lobos transforma-se num palco a céu aberto. Cerca de 600 figurantes percorrem as ruas em cortejo: grupos folclóricos, bandas paroquiais, casas do povo, associações locais. Grandes carros alegóricos celebram as tradições agrícolas e culturais da ilha, com destaque para a vindima.
A inclinação acentuada das ruas não intimida ninguém. Pelo contrário – coreografias e cantorias sobem a rua com uma energia que só a festa genuína consegue gerar.

Pisa da Uva: o esforço que vira dança
O momento mais aguardado chega ao final da manhã. As uvas colhidas horas antes chegam ao lagar – um tanque de grandes dimensões, montado no coração da festa – e a pisa começa. Mas quem espera um trabalho silencioso engana-se: a pisa é uma dança. Os cânticos ditam o ritmo, os pés marcam o compasso e o que poderia ser uma tarefa árdua transforma-se em celebração.
A fila para entrar no lagar é longa, mas isso não importa. Quem está no espaço encontra-se completamente imbuído no espírito, rodeado de barraquinhas com comes e bebes, aromas a vinho jovem e o som inconfundível da alegria coletiva. Quem se arrepende é quem não trouxe calções – ou umas calças para arregaçar até ao joelho – e disposição para saltar para dentro.

Três Semanas de Festa na Ilha
A Festa das Vindimas é apenas o ponto alto de um programa mais vasto que dura três semanas e se estende por vários pontos da Madeira. Há uma semana dedicada ao folclore, concertos em diferentes quintas da Região e um elegante Wine Lounge na baixa do Funchal – para quem prefere celebrar o vinho numa cadeira, com vista para o porto.
Seja qual for a forma de celebrar, a mensagem é a mesma: na Madeira, as uvas e a vinha não são apenas paisagem. São alma. De 23 de agosto a 13 de setembro de 2026 viva a Festa do Vinho da Madeira.




