Grande entrevista: “Recuámos 26 anos a nível de dormidas e 10 anos a nível de receitas”, Luís Araújo (Vídeo e texto)

Com a pandemia do Sars Cov2 presente no planeta há já dois anos, o Turismo de Portugal tem estado na linha da frente para fazer o setor seguir em frente com o menor número de percalços possível. A VIAJAR esteve à conversa com Luís Araújo para fazer uma síntese do que foi feito durante estes últimos meses, do que ainda está a ser feito e quais as perspetivas para a retoma total do Turismo em Portugal, apontada para 2023.

“Esta pandemia foi um despertar de consciências e um focar daquilo que são as verdadeiras prioridades dos países, das regiões, das empresas, com uma maior necessidade de aposta na cooperação, na colaboração e com o digital e a sustentabilidade a liderarem este processo de transformação.”

Por Sílvia Guimarães

VIAJAR – Após mais de ano e meio de pandemia, qual o balanço que faz destes meses em relação ao setor do turismo?
Luís Araújo – No setor do Turismo, em 2020, recuámos 26 anos a nível de dormidas e 10 anos a nível de receitas, o que é um indicador expressivo, mas também tem uma leitura que deve ser feita, dado estarmos a crescer muito mais em receita do que a nível de dormidas. Isto é muito importante! É o valor acrescentado que conseguimos trazer com cada dormida e com cada turista. Obviamente, em 2021 as coisas começam a melhorar. Pelo menos nos dados que temos até agosto já conseguimos estar acima de 2021 em algumas regiões, mesmo com capacidade aérea superior a 2019 e com bons indicadores para o futuro.
As grandes conclusões destes últimos 20 meses, não só a nível nacional como também internacional, são três. Em primeiro lugar vem a fragilidade da atividade do turismo, mesmo em situações que nada têm a ver com a própria atividade em si, depois o facto de ter um efeito de arraste em muitas outras áreas da economia e, finalmente, isto não ser só uma crise que afeta os países que são mais dependentes do turismo, mas assim todos os países do norte ao sul da Europa e de outros continentes.
Esta pandemia foi um despertar de consciências e um focar daquilo que são as verdadeiras prioridades dos países, das regiões, das empresas, com uma maior necessidade de aposta na cooperação, na colaboração e com o digital e a sustentabilidade a liderarem este processo de transformação.

“Não temos ainda hoje a perspetiva total de recuperação, embora acreditemos que em 2023 possamos vir a ter total recuperação dos dados de 2019, embora ainda haja muita incerteza em cima da mesa.”

V – Considera que as empresas do Turismo foram devidamente apoiadas?
LA – O total de apoios financeiros foi à volta de 3,2 mil milhões de euros, sendo que, deste total, 1,2 mil milhões foram a fundo perdido [os dados foram atualizados por Luís Araújo após termos realizado a entrevista, daí a diferença de números em relação ao áudio]. Sempre dissemos, desde o princípio, e é preciso lembrar, que não temos ainda hoje a perspetiva total de recuperação, embora acreditemos que em 2023 possamos vir a ter total recuperação dos dados de 2019, embora ainda haja muita incerteza em cima da mesa. O que sempre dissemos é que é importante manter os motores a trabalhar para que, quando voltasse a procura e nos permitissem tomar a mobilidade, podermos sair na linha da frente. A título de exemplo, estas iniciativas que se tomaram a nível da formação, com mais de 170 mil pessoas formadas durante os últimos meses, 40 mil postos de trabalho que foram protegidos e mais de 46 mil empresas que receberam apoio, fazem-nos acreditar que seguimos o caminho certo e fizemos o que era possível para recuperar. Agora o que estamos a sentir, com a procura a crescer e tendo noção que nenhum dos nossos ativos tenha saído prejudicado com a pandemia, até pelo contrário, muitas das empresas optaram por fazer investimentos e apostar em segmentos ou mercados diferentes. Estamos bem posicionados para arrancar na linha da frente. Com a força da marca Portugal, hoje a nível Internacional, acredito que vamos ter muitos bons resultados em breve.

V – Mas a Confederação do Turismo de Portugal afirma e reafirma, a cada intervenção pública do seu presidente, que há apoios que tardam em ser desbloqueados…
LA – Não, os apoios foram desbloqueados e chegaram às empresas. Tem havido até reforço de alguns apoios, como por exemplo a linha do Microcrédito, que teve um reforço recente. Tem havido muita preocupação de, em conjunto com as associações, e ouvindo as empresas também, tentar chegar ao máximo daquilo que são as reivindicações e isso tem que ser obviamente reconhecido por todos. Se era possível ir a mais? Temos que fazer uma gestão com base nos recursos e na possibilidade que temos, sempre com as previsões de recuperação a acompanhar-nos, que são muito positivas.
Houve uma capacidade de diálogo muito grande, houve capacidade de dar resposta a muitas das questões e das preocupações por parte das empresas, e principalmente, houve uma capacidade muito grande de manter a atenção e o foco naquilo que era essencial, com uma resposta rápida relativamente às necessidades a nível de capacidade aérea, de contato com os operadores, com os agentes de viagens e com o consumidor final através de campanhas. Isso é que é importante. É isso que nos vai permitir seguir para bom porto, agora que estamos a retomar, embora, obviamente, ainda com algumas situações de recuperação mais difícil, do ponto de vista de alguns segmentos mais específicos, como é o caso do MICE. Estes 20 meses de trabalho conjunto e de cooperação foram positivos e, mais uma vez, há sempre a capacidade e a necessidade deste diálogo permanente para dar resposta àquelas que são as necessidades do setor.

“Aquilo que fizemos com o Clean & Safe, de nos unirmos e de termos mais de 23 mil empresas e 40 mil pessoas que fizeram formação sobre o tema, conseguimos levar lá para fora uma mensagem de coesão e de cooperação, o que foi extraordinário. Ganhámos muito com isto e os frutos que estamos a colher com este trabalho é resultado desta imagem de coordenação e de colaboração.”

É tempo de recomeçar?

V – Disse recentemente numa intervenção pública que “este é o tempo de recomeçar”. Quais serão a partir de agora as principais matrizes que o Turismo de Portugal tenciona seguir para reerguer o setor?
LA – Como se sabe, desde 2007, temos uma estratégia definida e essa foi uma das grandes vantagens destes últimos 20 meses. Sabermos exatamente o que queríamos e em que áreas havíamos de atuar. Isto não significa que uma estratégia não tenha que ser ajustada ou adaptada e, em alguns casos, até acelerada.
Quando dizemos que esta é a altura de recomeçar, claro que é numa ótica de negócio, de voltar a receber os nossos clientes, e o verão foi uma belíssima prova de que o podemos fazer em segurança, para nós e para quem nos visita. Mas é também altura de recomeçar com um sentido novo daquilo que deve ser a atividade turística. O que queremos? Quais são os nossos ativos? Como os devemos promover ainda melhor e em conjunto?
O que temos hoje são duas fortalezas enormes. Uma passa pela preocupação com o outro, receber bem e respeitar as diferenças de cada um, e nós fazemo-lo como ninguém na hora de receber. Esta é uma das grandes fortalezas do país e da marca Portugal. Vemos isto também na avaliação que temos desta marca Portugal, não só enquanto destino turístico, mas enquanto marca global, e, por outro lado, esta capacidade de adaptação e de trabalho conjunto. Aquilo que fizemos com o Clean & Safe, de nos unirmos e de termos mais de 23 mil empresas e 40 mil pessoas que fizeram formação sobre o tema, conseguimos levar lá para fora uma mensagem de coesão e de cooperação, o que foi extraordinário. Ganhámos muito com isto e os frutos que estamos a colher com este trabalho é resultado desta imagem de coordenação e de colaboração.
É neste sentido que falamos no recomeçar. É aproveitar as fortalezas que temos, sem esquecer os desafios que possam surgir pela frente, os quais temos que tentar resolver e solucionar para tentarmos ser ainda mais sustentáveis, mais focados nas pessoas e com a experiência mais fluída no território. Posso dizer que estamos num muito bom caminho para isso.

“Quando se cresce mais de 60% de receitas em quatro anos, de 2015 a 2019, e quando se tem um ano recorde como 2019, obviamente que se chama a atenção de muitas companhias, nomeadamente aéreas, para a conectividade com Portugal. É uma questão de negócio e uma questão de oportunidade de negócio.”

V – Estão a negociar com novas companhias aéreas para abrirem novas rotas para Portugal?
LA – Quando se cresce mais de 60% de receitas em quatro anos, de 2015 a 2019, e quando se tem um ano recorde como 2019, obviamente que se chama a atenção de muitas companhias, nomeadamente aéreas, para a conectividade com Portugal. É uma questão de negócio e uma questão de oportunidade de negócio.
Ao longo destes meses tentámos, em primeiro lugar, retomar aquelas que eram as ligações que já existiam, reforçar o load-factor para essas ligações, estimulando a confiança do consumidor final, mas também ficámos atentos a novas oportunidades e procurar novas rotas, novas companhias e novas áreas de atuação. O que sentimos foi um enorme poder de atratividade de Portugal para as companhias. Vou dar alguns exemplos, o facto de termos Espanha ligada a Portugal, através da Ibéria, aos nossos cinco aeroportos nacionais é algo que não tínhamos antes. Termos a Lufthansa e a British Airways a voar para os Açores também é inédito. Depois temos a easyJet com a base no Algarve e o reforçar dessa base com mais uma aeronave. Isto demonstra o fruto do trabalho de todos e destas companhias aéreas sentirem que há uma oportunidade no nosso país.
Por outro lado, o facto da Iberia ter colocado Lisboa e Porto dentro do seu programa de stopover é uma mais valia para os passageiros desta companhia e é também muito positivo para nós, pois passamos a ter também o hub de Madrid a servir muitos turistas e passageiros que vêm de outros locais. São estas oportunidades que temos de continuar a descobrir e a acarinhar, por ser muito positivo a nível nacional. As 25 delegações do Turismo de Portugal que estão no estrangeiro, nós cá dentro com as Agências Regionais de Promoção Turística e os próprios territórios temos que identificar estas oportunidades e correr atrás. Isto é muito positivo para um país que depende em 70% do mercado internacional.

V – E quanto a novas companhias e rotas de cruzeiros?
LA – Acho que ainda há, e daí dizer que é preciso esta evolução e esta esta progressão, áreas de atividade que precisam cada vez mais de atenção. Os cruzeiros é uma delas. Acho que é uma questão de evolução positiva o que vamos sentir daqui para a frente, com a controlo da pandemia, a evolução da vacinação, a rapidez e facilidade com que se fazem testes. É uma questão de, aos poucos, começarmos a deixar cair as barreiras que temos hoje, tanto ao nível de circulação como de mobilidade, para assim podermos voltar a ter uma atividade normal, tanto no turismo como em todas as áreas.
A sazonalidade nos cruzeiros, tal como em muitas outras áreas e em todas as regiões, ainda é uma realidade muito presente e essa é uma das grandes questões que temos vindo a trabalhar.
Outra das lições destes quase dois anos de pandemia é o facto de nos termos apercebido da necessidade de promovermos o país como um todo, claramente diverso, mas estruturado em produtos ou em redes que permitam trazer um maior valor acrescentado.
Quando falamos que a nossa aposta é no turismo literário, no turismo industrial, nas redes – com as aldeias de xisto e as aldeias históricas –, os caminhos de Santiago, no surf ou no golfe, podemos dizer que é este tipo de atividades que nos vai permitir também ancorar muito mais a procura e distribuí-la ao longo do ano. Estamos a ter bons sinais e acredito que no final do ano e princípio do próximo, meses por hábito difíceis, principalmente dezembro, janeiro e fevereiro, poderá haver uma reviravolta e a procura começar a expandir-se mais por esses meses também. Esta são oportunidades que também temos que aprender a conquistar. Por exemplo, vamos receber agora, em dezembro, um evento no qual as escolas do Turismo de Portugal participavam e que estava previsto realizar-se num outro país europeu, mas, por questões de limitações de mobilidade, vai mudar-se para Portugal e ser feito cá.
Por outro lado, temos que estimular as grandes empresas de que é necessário recomeçar a viajar, embora talvez com uma maior componente social, talvez com estadias mais longas, porque é isso também que a procura nos diz, com a tónica de ganharmos espaço e recuperarmos aquilo que tínhamos.

Promoção

V – Ao nível da promoção, os países de proximidade vão continuar a ser a grande aposta?
LA – Sim. Quando falamos em países de proximidade não é obviamente apenas a proximidade geográfica, mas também proximidade de conhecimento de saberem exatamente onde estamos e onde temos uma presença mais forte. Fizemos a segmentação em quatro níveis. Os mercados de proximidade são aqueles que vão ter mais atenção, incluindo também o mercado interno. De seguida, vêm os mercados de crescimento, como é o caso dos Estados Unidos e do Brasil, para os quais sentimos que há uma procura latente enorme. Seguem-se os mercados dentro da Europa em que estamos dependentes das ligações aéreas, como é o caso da Bélgica, Holanda e Itália. Por último, uma atuação seletiva em mercados que, apesar de serem mais pequenos para nós, podem ter aqui um crescimento rápido, tal como estava a acontecer antes do início da pandemia, nomeadamente os asiáticos, como a Coreia do Sul, o Japão, a China.
Graças ao digital e à tecnologia temos hoje uma capacidade enorme de desviar a nossa atenção ou de a reforçar consoante os sinais de procura que existem, a nível de pesquisas, de operadores, de operações aéreas. Hoje em dia temos muito mais informação e também disponibilizamos mais informação às empresas para que isto não seja só um esforço do Turismo de Portugal, mas sim um esforço partilhado com as empresas para estas saberem onde podem ir buscar negócio para depois o receberem cá.

Sustentabilidade versus vontade

V – Muito se tem falado de sustentabilidade. O que é preciso para nos tornarmos num destino mais sustentável?
LA – Vontade, nada mais do que vontade. Depois é também uma questão de educação e de formação. Na Academia Digital do Turismo de Portugal fizeram formação, no último ano, cerca de 170 mil pessoas e muitas optaram que essa formação fosse em Sustentabilidade, o que é extremamente positivo. Isto demonstra a nossa atenção em estarmos atentos às necessidades do cliente, mas não entendamos isto apenas como uma questão de marketing ou de comunicação, e sim como benefício para o planeta e para a sustentabilidade da atividade no futuro. Quando dizemos que queremos ser ainda sustentáveis obviamente que há aqui questões de investimento e a medidas previstas para isso, dentro do programa “Reativar o Turismo, Construir o Futuro”. É uma questão de formação e de qualificação, que o Turismo de Portugal tem vindo a assegurar, mas é sobretudo uma questão de atitude e vontade.
No entanto, não nos podemos focar apenas na questão ambiental da sustentabilidade, a componente social tem que estar cada vez mais presente. Para isso, lançámos o plano “Turismo mais sustentável” até 2023. Ao todo são 119 iniciativas em várias áreas, desde o desenvolvimento de produto, a qualificação, a produção e até a monitorização daquilo que temos hoje e do que queremos no futuro, com metas muito concretas, reduzindo em 75% o consumo de plásticos únicos, 50 mil pessoas formadas em sustentabilidade nos próximos três anos, mais de 200 referências do país como destino de sustentável, entre outros. No entanto, não nos podemos esquecer que este não é um trabalho apenas do Turismo de Portugal. Nesta componente de sustentabilidade o Turismo de Portugal tem a sua parte ao nível de linhas de financiamento, estruturação de oferta formativa, fazer benchmark, transmitir as melhores práticas daquilo que se faz lá fora, mas depois vem o outro lado da responsabilidade de cada um ao nível social, com um setor mais inclusivo, que valoriza a diversidade de género, que prepara as gerações para o futuro, que tem consciência de que temos que ser muito mais atrativos para resolvermos muitos dos problemas que vamos ter que enfrentar no futuro, nomeadamente a questão dos recursos humanos. É esta a sustentabilidade que queremos e não depende apenas do Turismo de Portugal, porque há um plano, há estratégias que vão ser lançadas nos próximos tempos, mas é sobretudo uma questão de atitude e de vontade.

“Não nos podemos esquecer que temos uma componente muito forte de jovens na nossa indústria e, muitas vezes, aquilo que atrai um jovem não é a mesma coisa que atrai uma pessoa com mais idade. Tem que haver esta flexibilidade e capacidade de gerar atratividade.”

V – Os recursos humanos são a resposta à sustentabilidade?
LA – Sem dúvida que sim. Quando falamos em recursos humanos, e temo-lo feito muito internamente, porque este é um dos grandes desafios não só de Portugal como de toda a Europa, temos que falar sempre de três coisas. A primeira tem a ver com demografia, porque temos uma população que está a envelhecer e temos que ir buscar recursos humanos a algum lado. Com o acordo que foi celebrado recentemente para estreitar as relações e a mobilidade entre os países CPLP é uma excelente notícia para Portugal e, principalmente, para o setor do Turismo.
A segunda questão tem a ver com a componente da formação e da qualificação dos recursos, a todos os níveis e não apenas a nível superior. A formação tem que ser direcionada não tanto para a eficiência da empresa, mas para o crescimento da pessoa dentro dessa empresa.
Por último, a terceira componente tem a ver com a atratividade do setor, desde as componentes salariais, as componentes de benefícios, para cada empresa poder perceber o que deve fazer para fidelizar aquela pessoa dentro da sua empresa. Não nos podemos esquecer que temos uma componente muito forte de jovens na nossa indústria e, muitas vezes, aquilo que atrai um jovem não é a mesma coisa que atrai uma pessoa com mais idade. Tem que haver esta flexibilidade e capacidade de gerar atratividade. Este é um trabalho que não passa apenas pelas entidades públicas, aliás passa muito pelas entidades privadas, e não só pelo setor do turismo, é transversal a todas as áreas. É um trabalho conjunto que tem de ser feito, mas é obviamente uma das áreas que temos que dar mais enfoque a partir de agora. Estes últimos meses de pandemia demonstraram-nos que, após muitos dos ativos terem saído para outras áreas e outros setores de atividade, agora temos de reconquistar essas pessoas novamente para o setor turístico.

V – O Turismo de Portugal acaba de lançar o “Invest in Tourism”. Pode especificar do que trata este programa?
LA – O “Invest in Tourism” é uma plataforma que reestruturámos e que lançámos agora como uma nova plataforma. Irá juntar, num lugar só, tudo aquilo que é necessário para que qualquer pessoa, estrangeiro ou português, que queira investir no setor tenha de saber para fazer o seu investimento, desde licenciamentos, dados, estatísticas, financiamentos, oportunidades, oportunidades de parceria, entre outros. Nesta plataforma estará toda a informação sobre investimento no setor, em qualquer área, para atrair novo investimento ou atualizar investimento já existente no setor do turismo.
Pretendemos, além do que já existe, passar para uma outra componente de demonstrarmos a capacidade que o turismo tem de arrastar ou contagiar positivamente outros setores de atividade, desde os materiais de construção passando pela decoração, dos vinhos às áreas alimentares, ou seja, todos os setores que estão diretamente ligados ao turismo.
Nesta plataforma podemos fornecer toda a informação que o investidor necessita para poder vir a investir no nosso país. Há sempre um exemplo que gosto de dar, a correlação que existe entre os mercados brasileiro e norte-americano, com um crescimento acentuado de número de turistas para Portugal nos últimos anos, ao nível das exportações de vinho para esses países e é uma relação de um para um, ou seja, o crescimento que nós sentimos a nível do turismo é exatamente o mesmo que sente ao nível da exportação de vinhos.

Novas restrições

V – Há países europeus que estão a impor novas restrições de entradas e saídas devido ao aumento de número de casos Covid-19 desde o início do outono. Considera que estas novas medidas são preocupantes?
LA – Claro que nos preocupa, sobretudo por duas razões. Primeiro porque gera falta de confiança e destrói a pouca confiança que as pessoas tinham em viajar e em andar de um lado para o outro. Talvez isso explique o facto de as reservas serem cada vez mais em cima da hora. Outra das nossas grandes preocupações passa pelo facto de muitas vezes estas medidas tornarem-se numa bola de neve. Vemos medidas que são muitas vezes tomadas em outros países ou países vizinhos que acabam por nos influenciar.
As decisões que têm sido tomadas a nível mundial em relação às restrições de mobilidade, desde novembro do ano passado, têm muito que se lhes diga. O ECDC – Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças disse e escreveu que os turistas eram a população de menor risco para a propagação da pandemia, a partir do momento em que já havia propagação e contágio dentro das próprias populações. O que para nós é fundamental é defender que qualquer medida que se tome seja baseada não apenas em dados da ciência, mas também no impacto que isso tem. Se vemos entidades, como a ECDC, a dizer que o turista é de menor risco então temos que continuar a ter mobilidade pelo menos nessa componente turística ou nessa componente de atratividade que continuamos a ter.
Passados quase dois anos de pandemia, podemos dizer que os países que abriram mais cedo foram aqueles que mais recuperaram ou que conseguiram captar mais mercados e segmentos. É importante analisar e estudar se essa abertura teve de facto um impacto na propagação da pandemia ou não, para assim tomar decisões com base naquilo que foi feito ao longo dos últimos meses. Dentro da European Travel Commission estamos precisamente a fazer essa avaliação e a tentar estimular que esta investigação seja feita. É isso que nos vai dar lições para o futuro.

“A marca Portugal é uma marca fortíssima, muito associada aos valores do turismo, através da nossa autenticidade, simpatia, capacidade de recebermos bem (…) Se conseguirmos trabalhar em conjunto e reforçar esta imagem de Portugal, passando as boas notícias daquilo que está a acontecer cá dentro, com muitas empresas a prepararem se para esse futuro, acho que ainda vamos ter muito boas surpresas nos próximos anos.”

Retoma em 2023?

V – Já falou que as perspetivas de recuperação total poderá ser lá para 2023. Mas, o que perspetiva para este ano, que agora termina, em termos de números e como vê 2022?
LA – A nossa perspetiva é em 2023 alcançarmos os números de 2019 em termos de receitas. este ano o nosso grande objetivo seria fecharmos com 50% das receitas de 2019, ou seja, à volta de nove mil milhões de euros de receitas.
Os números que temos disponíveis são de janeiro a agosto e podemos dizer que há um relativo crescimento em relação a 2020. Ainda estamos longe dos resultados de 2020, em cerca menos de 55 a 60%, mas mais uma vez há uma excelente resposta do mercado interno, que acreditamos que vai continuar a manter-se nos resultados que vamos obter entre setembro e dezembro. E há uma retoma progressiva da capacidade aérea. Em agosto tivemos à volta de 60% da capacidade aérea que tínhamos em 2019 e as previsões para este inverno IATA são à volta de 80 a 90% da capacidade que tivemos nesse ano pré-pandemia, isto se continuar a haver o interesse por parte da procura e continuarmos a ter esta abertura sem mais limitações do ponto de vista de acesso. Se conseguirmos manter isto, e obviamente que há aqui muitos “ss” que não dependem de nós, acredito que a retoma vai ser mais rápida do que aquilo que prevemos, embora já seja muito positivo se conseguirmos recuperar em 2023 os indicadores que tínhamos em 2019.
Mais uma vez, a marca Portugal é uma marca fortíssima, muito associada aos valores do turismo, através da nossa autenticidade, simpatia, capacidade de recebermos bem, e isso não somos nós que o dizemos, mas sim um estudo, realizado em 2019, nos principais 10 mercados com quem trabalhamos. Se conseguirmos trabalhar em conjunto e reforçar esta imagem de Portugal, passando as boas notícias daquilo que está a acontecer cá dentro, com muitas empresas a prepararem se para esse futuro, acho que ainda vamos ter muito boas surpresas nos próximos anos.

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