“O ano de 2022 está no limiar de se tornar o melhor ano de sempre do turismo nos Açores”

Entrevista com Berta Cabral, secretária regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas dos Açores

Assumiu a pasta da Secretaria Regional que tutela o turismo nos Açores em abril deste ano, mas já passou pelo cargo de secretária de Estado Adjunta e da Defesa Nacional no governo de Passos Coelho, e assumiu a autarquia de Ponta Delgada durante dois mandatos. A VIAJAR esteve à conversa com Berta Cabral e aprofundou assuntos de interesse regional e nacional para o turismo.

Por Sílvia Guimarães

Viajar –  Os Açores foram o primeiro arquipélago do mundo a receber, em dezembro de 2019, a distinção de “Destino Turístico Sustentável”, entregue pelo Global Sustainable Tourism Council. Neste momento, já conseguiram alcançar a medalha de prata (nível II) e estão a tentar chegar ao ouro em 2024. O que é o que o governo regional está a fazer para conseguir alcançar este objetivo?

Berta Cabral – O desenvolvimento sustentável do turismo nos Açores é uma prioridade inegociável deste Governo. O trabalho no âmbito da certificação que a nossa região conquistou é feito diariamente, em articulação com vários players do mercado e grupos de trabalho, como o Comité Consultivo para a Sustentabilidade do Destino Turístico Açores, o Grupo de Acompanhamento da Sustentabilidade do Destino Turísticos Açores, e as Green Teams existentes em cada uma das nove ilhas. Tudo isto é complementado com outras iniciativas de impacto e mobilização social e empresarial, como é o caso da Cartilha de Sustentabilidade dos Açores, recentemente reconhecida nos European Entreprise Promotion Awards como o melhor projeto nacional na categoria de «Apoio à Transição Sustentável».

O sistema normativo que certificou os Açores como “Destino Turístico Sustentável” é muito exigente e desenvolve-se de uma forma progressiva. Exige um compromisso de longo prazo em que, ao longo do tempo e mediante o cumprimento de marcos, se vão conquistando novos patamares de certificação. Obtivemos, no ano passado, o Nível 2 de Prata e estamos a trabalhar para ter este ano o Nível 3 de Prata, num caminho que nos levará ao Nível de Ouro em 2024. O sistema de certificação, pela sua exigência e critérios – de acordo com o Global Sustainable Tourism Council –, impõe este ritmo, mas, muito mais do que isto, impõe um profundo, amplo e permanente trabalho para cumprir com os objetivos e patamares previstos.

V – O facto de os Açores serem um destino sustentável ajudou a que a procura durante e no pós pandemia fosse fundamental para atrair mais e melhores turistas?

BC – Sem dúvida. Logo após o encerramento de fronteiras e de se começar a pensar no “day after”, foi imediata a perceção em todo o mundo que os destinos de natureza, sem massificação e posicionados como sustentáveis, iriam ter uma vantagem competitiva. As pessoas iriam querer distância de aglomerados turísticos e iam procurar o um contacto mais puro e autêntico com a natureza. Os Açores são o exemplo perfeito desse perfil e já estavam um ou dois passos à frente em matéria de sustentabilidade. Estrategicamente, comunicámos e posicionámo-nos muito bem nesse momento, algo que é comprovado pela recuperação em 2021 e pela sua consolidação em 2022.

Somos o primeiro e único arquipélago no mundo certificado como «Destino Sustentável»; somos uma referência de sustentabilidade na União Europeia; somos considerados há três anos consecutivos como o «Melhor Destino de Turismo de Aventura da Europa» nos World Travel Awards; fomos selecionados pela National Geographic Traveller como um dos melhores destinos do mundo para 2023; e fomos identificados na WTM como o destino com maior potencial de crescimentos. Estamos, obviamente, muito satisfeitos e com boas perspetivas da nossa capacidade e qualidade para enfrentar os duros desafios que se adivinham no mercado do turismo no próximo ano.

V – Na época de verão deste ano, e segundo dados do INE, a região dos Açores conseguiu atingir um número crescente de dormidas e hóspedes. Estes resultados excederam as expetativas?

BC – O início do ano de 2022 foi ainda difícil e com algumas ondas de impacto da pandemia, mas a partir do verão houve um crescimento muito mais significativo. Não foi propriamente uma surpresa, pois com a manifestação de interesse de tantas companhias aéreas e com a recuperação que aconteceu em 2021, era previsível que houvesse crescimento na procura no verão de 2022. Porém, o que surpreendeu, de alguma forma, foi o crescimento em valor e, em concreto, nos proveitos gerados, que ultrapassam quase em 20% os registos de 2019. É um claro sinal de valorização do turismo nos Açores e de elevação qualitativa.

“Em termos de proveitos gerados vamos mesmo ter novo recorde”

V – O ano de pré-pandemia foi para o turismo em Portugal, de uma forma geral, os melhores de sempre. Este ano já conseguiram alcançar esses números?

BC – O ano de 2022 está no limiar de se tornar o melhor ano de sempre do turismo nos Açores em todos os indicadores de desempenho tradicionais. Apesar dos primeiros quatro meses do ano ainda ficarem abaixo de 2019, os meses seguintes foram tão bons que se perspetivam novos máximos. Como já referi, em termos de proveitos gerados vamos mesmo ter novo recorde, algo que também se está a verificar no número de passageiros desembarcados nos nossos aeroportos.

V – A inflação em que o país está a entrar poderá colocar em causa a ultrapassagem destes resultados?

BC – A inflação atual é, de facto, uma ameaça, sobretudo para o desempenho imediato. Os últimos meses do ano podem ter um maior impacto e em 2023 essa realidade poderá ser ainda mais evidente. Havendo quebras drásticas no poder de compra das famílias, haverá, provavelmente, redução no consumo de lazer e de viagens.

V – A sazonalidade ainda é uma realidade muito presente no arquipélago. O que é que o executivo tem feito para tentar a combater? Estão a tentar desenvolver novos e diferentes produtos turísticos?

BC – A sazonalidade é, provavelmente, uma realidade da generalidade dos destinos turísticos do mundo e é um tema que é recorrente e revisitado todos os anos por governos e gestores de turismo. Tem muito a ver como o modelo de sociedade que temos atualmente e com os períodos de férias escolares, judiciais, legislativos, etc.

De qualquer modo, a mitigação da sazonalidade é, efetivamente, um grande desafio que temos em mãos e uma prioridade para o desenvolvimento do turismo nos Açores, embora tenhamos condições de excelência para ser um destino de ano inteiro. Temos estado a trabalhar com companhias aéreas para alargar a oferta, mas isso é um trabalho de longo curso, que levará tempo até produzir resultados mais visíveis. Estamos, também, a criar incentivos para a realização de eventos em época média e baixa, bem como a estimular novos produtos turísticos, associados ao turismo de natureza, cultura, saúde e bem-estar, Meetings & Incentives, entre outros mais específicos ou de nicho.

V – Foi aprovada a aplicação de uma taxa turística, a partir de 2023, nos Açores. O que vos fez avançar com esta decisão?

BC – A implementação de uma taxa turística nos Açores não foi uma decisão do Governo. A taxa turística foi aprovada pela Assembleia Legislativa da região Autónoma dos Açores por proposta do PAN, e, nesse sentido, o Governo dos Açores irá cumprir integralmente com essa decisão e aplicá-la em conformidade.

V – Quais foram aos mercados que mais contribuíram para os bons resultados do turismo nos Açores durante este ano?

BC – Para além do mercado nacional, que foi extremamente importante na retoma do turismo nos Açores sobretudo em 2021, os mercados emissores da Alemanha, EUA, Espanha e França foram os principais a potenciar o crescimento em 2022.

V – Eram estes os mercados que em 2019 procuravam o arquipélago? O que alterou com a pandemia?

BC – Mantém-se uma importância relevante dos mercados tradicionais, mas nota-se um crescimento do mercado norte-americano, que potencialmente poderá ser líder na emissão de turistas estrangeiros para os Açores a curto/médio prazo. Há também um novo crescimento do mercado espanhol e, também, uma dinâmica muito interessante no mercado francês e no italiano. Há, sem dúvida, potencial para crescer.

“Está a ser estudada, de forma muito criteriosa, a possibilidade de [o governo regional] voltar a integrar a ATA”

V – O governo regional já demonstrou intenção de voltar a integrar a ATA. Como está a decorrer este processo?

BC – Em 2019, por decisão do Governo de então, houve a opção de desvincular institucionalmente a Região Autónoma dos Açores da ATA – Associação de Turismo dos Açores e criou-se uma situação confusa na promoção externa da região. Entre outras coisas, é uma decisão que nos parece contrariar a própria natureza das Agências Regionais de Promoção Turística e, por isso, está a ser estudada, de forma muito criteriosa, a possibilidade de voltar a integrar a ATA. É um processo que está a ser aprofundado em termos técnicos.

V – O objetivo, com essa integração, será alterar o modelo de promoção do destino?

BC – A ATA tem sido um veículo essencial para a promoção externa dos Açores nos últimos anos, com resultados muito positivos, como se verifica pela recuperação pós-pandemia. Contudo, há um claro entendimento que o modelo de promoção turística atual pode e deve ser melhorado e consolidado, potenciando maior coesão regional e garantindo uma ligação mais assertiva entre o setor público e o setor privado.

V – Tal como em todo o país, também os Açores estão a ser bastante afetados pela falta de recursos humanos qualificados nos setores da hotelaria e restauração. Que medidas é que o governo regional está a tomar para tentar combater este défice de mão de obra, tanto ao nível de atrair mais pessoas para trabalharem no arquipélago como no aliviar das questões de fiscalidade para com as empresas, para que estas tenham mais e melhores condições para oferecerem salários mais elevados?

BC – A falta de mão-de-obra e de mão-de-obra qualificada no setor do turismo são problemas sérios e que têm merecido a nossa atenção. O Governo tem procurado responder com a criação de mecanismos que permitam criar maior estabilidade no emprego, reforçar as qualificações dos profissionais do setor, e melhorar a atratividade das profissões deste setor. Incluem-se aqui, por exemplo, os programas TURIS.ESTÁVEL e FORM.AÇORES, desenvolvidos pela Secretaria Regional da Juventude, Qualificação Profissional e Emprego, para além de iniciativas de promoção da qualificação profissional, como cursos de curta duração, que permitam a rápida reconversão de profissionais de outro setor ou a entrada quase imediata no mercado de trabalho de novos ativos. Temos, ainda, procurando uma recorrente valorização destas atividades profissionais, sobretudo através das empresas, sem esquecer que não região já temos um diferencial fiscal muito significativo quando comparado, por exemplo, com o continente Português.

“Estamos a salvar, literalmente, a SATA e a dar esperança à mobilidade dos açorianos”

V – A privatização de 51% da SATA está prevista na proposta de orçamento dos Açores para 2023. Sabe-se que esta foi uma imposição feita por Bruxelas, mas existiria outra alternativa para a sobrevivência da companhia aérea que não esta, tendo em conta os prejuízos que tem vindo a acumular, já a totalizar 44,4 M€?

BC – Quando este Governo tomou posse, a SATA encontrava-se numa situação crítica e de muito difícil resolução. Felizmente, após um processo negocial muito duro e complexo, foi possível chegar a um Plano de Reestruturação que envolve muito mais ações do que apenas a privatização de 51% do capital da Azores Airlines – que é uma das companhias do grupo SATA, responsável por voos de e para o exterior – e não a SATA Air Açores – responsável pelas ligações interilhas. Não existe mais nenhuma opção ou plano B para além do cumprimento deste Plano de Reestruturação.

V – Esteve em cima da mesa a privatização de 49% para a companhia não passar em maioria para as mãos dos privados? Se sim, o que fez o governo regional recuar nesta proposta?

BC – Tal como respondi anteriormente, a privatização da Azores Airlines é apenas uma de muitas ações dentro de um Plano de Reestruturação muito complexo. Todas as eventuais opções diferentes que pudessem existir neste pacote seriam muito mais penalizadoras para a região.

V – Há quem defenda que o governo regional colocou a decisão sobre a SATA nas mãos de Bruxelas, quando deveria defender os seus interesses e os dos açorianos. O que tem a dizer sobre estas posições?

BC – Em primeiro lugar, só se pode dizer que quem profere essas afirmações desconhece ou prefere ignorar o processo muito duro, exigente e complexo que existiu nas negociações entre a região e a Comissão Europeia, onde tudo foi feito para proteger os interesses dos açorianos. E, apesar de toda essa dificuldade, foi esse processo que permitiu salvar a SATA e minimizar os danos para a região. Em segundo lugar, tenho de dizer que parte da oposição que diz essas coisas deveria ter a consciência da responsabilidade que tem na situação em que a SATA se encontra.

V – A SATA, também por imposição de Bruxelas, previsto no plano de reestruturação da empresa, vai deixar de operar algumas rotas, consideradas deficitárias, a partir de março de 2023. Como vão conseguir resolver esta questão com o Governo da República e com a ANAC?

BC – A SATA não poderá operar mais rotas deficitárias e isso é um dado adquirido. A partir daqui, tudo o que forem rotas passíveis de obrigações de serviço público deverão ser lançadas a concurso e devidamente compensadas, criando a oportunidade para todos o interessados, incluindo a própria SATA, poderem concorrer. Em particular, estão aqui em causa as ligações aéreas de Lisboa às ilhas do Faial, Pico e Santa Maria, inscritas na proposta de Orçamento de Estado com um valor de 3,5 milhões de euros, mas cujo valor terá necessariamente de evoluir para cerca de 10 milhões de euros.

V – A companhia aérea e a senhora secretária, quando anunciaram os bons resultados alcançados pela SATA na operação de verão deste ano, foram bastante criticados pela oposição porque, mesmo tendo conseguido atingir um lucro de 7,2 M€ no terceiro trimestre, afirmam que os resultados operacionais da SATA ficaram aquém das expetativas. Como vê estas críticas?

BC – Vejo essas críticas com alguma perplexidade. Estamos, finalmente, a assistir a sinais de alguma inversão no ciclo de resultados negativos da empresa, mesmo perante uma conjuntura internacional extremamente adversa. Não é só o facto de existir uma guerra, a pior crise inflacionista dos últimos 30 anos ou disrupções nas cadeias de abastecimento. É também o facto da SATA ter saído muito fragilizada de anos e anos de má gestão e de uma pandemia que parou a economia mundial e destruiu inúmeras companhias de aviação. Nós estamos a salvar, literalmente, a SATA e a dar esperança à mobilidade dos açorianos, mesmo contra essas críticas que não se percebe bem porque são proferidas.

V – Os Açores são, uma vez mais, o destino escolhido pela APAVT para realizar o seu congresso anual. Qual a importância do evento para o turismo dos Açores?

BC – Receber o congresso da APAVT é uma honra e um orgulho. Estamos, certamente, a falar de um dos maiores, se não mesmo o maior evento nacional de profissionais de turismo. A APAVT sabe, melhor do que ninguém, a exigência logística e técnica que tem um evento desta natureza. Logo, reconhecer nos Açores a capacidade para o organizar é, também, demonstrar a todo o mercado o potencial que cá existe. Funciona como um “carimbo de qualidade” para a nossa indústria de Meeting & Incentives e valida diretamente junto dos operadores nacionais que este é um destino seguro e capaz. E isso é particularmente relevante quando o MI é um dos segmentos que estamos a trabalhar para mitigar a sazonalidade e facilitar a distribuição de fluxos por todas as ilhas. Para além disso, não esqueçamos que ter algumas centenas de agentes do setor do turismo na região é a oportunidade certa para os colocar em contacto com o produto diferenciado que vão vender e convencê-los da riqueza única que cá temos. É uma impressionante visibilidade que se dá ao destino, com um imenso potencial de criação de negócio imediato e a prazo. E isso acontece, precisamente, em plena época baixa, contribuindo para a dinamização do mercado local e mesmo para mostrar o potencial e a qualidade que existe também nesta época do ano. Por fim, ter este congresso nos Açores é também relevante, porque o mercado nacional é o nosso maior mercado emissor de turistas, e isso pode ser particularmente relevante nos próximos tempos, onde poderão existir mais viagens para destinos próximos em virtude da crise inflacionista.

Entrevista publicada na edição de dezembro/2022

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Viajar 380 Dezembro 2022

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